Words shared become Light

On Depression

ENG

 (Rational view of the Depression for those who live with it (know it or not) and who lives with who lives with it)

I’m imprisoned. For 17 years, more than half of my life, I have been living with the most disabling illness of all, depression. To declare this is not easy. To admit that we have some kind of psychological disorder is to subject ourselves to the label. To the label of fragile, of silly, of incapable to managing the our own lives, of lazy ones. I myself felt that everything I felt was just laziness and excuses to avoid living. I was not an unhappy child. I had a childhood full of challenges that most people do not get to experience  in a lifetime. I learned very early to deal with pain, death, depression and physical suffering. But for me, obstacles exist to be overcome, to become stronger, they are only natural consequences of existence. And for every challenge I faced I have always found an alternative, a solution, as I continue to do. So I was always happy, I was strong, I had Love, I did not need anything else. I do not know how to explain what it is to be happy just because you are, I did not know anything else. I did not even realize I was becoming  something else. I remember, as if it were today,the introduction of Anxiety, the best friend of  Depression. I had a crisis, one morning like any other, without warning, in  class, she took control of my body. I stopped breathing, controlling my hands, and could swear that my heart would burst out of my chest and run away. Then came insomnia, the feeling of impotence, insecurity, anorexia, nonstop crying, fear, fear! And suddenly they all became part of me, without me asking for it, without me wanting it, without me liking it. It was treated with the medication and battalion of usual doctors. And the first time she “went away”, and the second time she “went away”, and the third time, she was already so deeply involved in me that I began to think that social phobia, panic, feelings of emptiness, permanent darkness in my choked chest, were all things in my head. Things that had more to do with me being absolutely incompetent, useless, incapable, than anything else. So much that it took me 3 years to be diagnosed. Having a depression is a daily battle with our own Soul. How do we get rid of something that feeds on us and our frailties ?! I have tried various forms of treatment, Medication, which is indispensable to some extent; Meditation, which helps a lot, especially to fall asleep; Positive thinking, essential but difficult to maintain when we feel swallowed by suffering and paranoia; Work, which often helps, but sometimes makes us worse because it reminds us of everything that makes us feel inadequate; Facing our fears, that makes all the difference, as long as we allow ourselves to do it. The issue is that it is a continuous, daily effort, and falling into darkness is too easy because “the person” we try to heal is also our worst enemy. Depression is nothing we desire. It hinders everything else. We are not us. There is something very strange about being sad, about feeling sad, as if sadness is not natural, but at the same time it is invincible. Depression does not mean that I can never be happy, because I am, for moments, it happens. Today I was, for minutes, tomorrow I can be again. The point is, whenever we are a little happy, Depression calls all its henchmen, when the euphoria of Happiness ends,  to bury us again. I know many people who suffer with It every day. That went through and go through other very difficult situations. I always advise them to use all the techniques I know. I advise them to take the medication right to the end. I advise them to watch over Her. She is a silent enemy who takes advantage of our own frailties. I know people who get better. I have Faith. Depression is just an obstacle. I do not give up. I have Faith. Everything can change. Be Strong. Have Faith. You will make it. Don?t give up. Never.

PT

(Visão racional da Depressão para quem vive com Ela ( saiba ou não) e quem vive com quem vive com ela)

Vivo aprisionada. Há 17 anos, mais de metade da minha vida, que convivo com a doença mais incapacitante de todas, a depressão.
Dizer isto não é fácil. Assumir que temos algum tipo de distúrbio psicológico é sujeitarmo-nos ao rótulo. Ao Rótulo de frágeis, de tolinhos, de incapazes de gerir a própria vida, de preguiçosos. Eu própria passei achar que tudo o que sentia não passava de preguiça e desculpas para evitar viver.
Eu não fui uma criança infeliz. Tive uma infância cheia de desafios que a maior parte das pessoas não chega a conhecer numa vida inteira. Aprendi a lidar muito cedo com a dor, a morte, a depressão e o sofrimento físico. Mas, para mim, obstáculos existem para serem ultrapassados, para nos tornarem mais fortes, são apenas consequências naturais da existência. E para cada desafio arranjei sempre uma alternativa, uma solução, como continuo a fazer. Por isso fui sempre feliz, era forte, tinha Amor, não precisava de mais nada. Não sei como se explica o que é ser feliz só por ser, eu não conhecia outra coisa. Nem dei conta de passar a ser outra coisa.
Lembro-me como se fosse hoje da apresentação da Ansiedade, a melhor amiga da Depressão. Tive uma crise, uma manhã como outra qualquer, sem aviso, numa aula, ela tomou controlo do meu corpo. Deixei de respirar, de controlar as minhas mãos e podia jurar que o coração ia rebentar o meu peito e fugir. Depois vieram as insónias, o sentimento de impotência, a insegurança, a anorexia, as crises de choro, o medo, o medo! E de repente todos eles passaram a fazer parte de mim, sem que eu pedisse, sem que eu quisesse, sem que eu gostasse.
Tratou-se com os químicos e batalhão de médicos do costume.
E da primeira vez “passou”, e da segunda vez “passou”, e da terceira vez, ela já estava tão embrenhada em mim, que eu comecei achar que a fobia social, o pânico, o vazio de sentimentos, escuridão permanente no meu peito sufocado, eram tudo coisas da minha cabeça. Coisas que tinham mais a ver com o facto de eu ser absolutamente incompetente, inútil, incapaz, do que com outra coisa qualquer. Tanto que demorei 3 anos a ser diagnosticada.
Ter uma depressão é uma batalha diária com a nossa própria Alma. Como é a gente se livra de algo que se alimenta de nós e das nossas fragilidades?!
Já tentei diversas formas de tratamento, os químicos, que até certo ponto são indispensáveis; a meditação, que ajuda muito, especialmente a adormecer; o pensamento positivo, essencial mas difícil de manter quando nos sentimos engolidos pelo sofrimento e pela paranoia; o trabalho, que muitas vezes ajuda, outras vezes piora porque nos lembra de tudo que nos faz sentir inadequados; enfrentar os medos, que faz toda a diferença, desde que nos deixemos. A questão é que é um esforço contínuo, diário, e cair na escuridão é demasiado fácil porque “a pessoa” que tentamos curar é também o nosso pior inimigo.
A depressão não é nada que se queira. Dificulta tudo o resto. Nós não somos nós. Há algo muito estranho em estar triste, em ser triste, como se a tristeza não fosse natural, mas fosse ao mesmo tempo invencível.
Depressão não significa que nunca consigo ser feliz, porque sou, por momentos, acontece. Hoje fui, por minutos, amanhã posso ser outra vez. A questão é que, sempre que somos um pouco felizes, a Depressão chama todos os seus capangas, mal acaba a euforia da Felicidade, para nos voltar a enterrar. Conheço muita gente que sofre com Ela todos os dias. Que passou e passa por outras coisas muito difíceis. Aconselho sempre todas as técnicas que conheço. Aconselho que tomem a medicação certinha até ao fim. Aconselho que A vigiem, Ela é um inimigo silencioso que tira partido das nossas próprias fragilidades. Conheço gente que melhora. Tenho Fé. A Depressão é só um obstáculo. Não desisto. Tenho Fé. Tudo pode mudar. Tenham Força. Tenham Fé. Não desistam. Nunca desistam.

 

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On Self-Image / Da Auto-imagem

ENG

“I know I’m beautiful, but I do not feel pretty.”

This phrase must be present in the thought  of many women in the world. And I do not say this so that you may pity me or praise me. I noticed that none of that works. The issue comes from within. I have been meaning to write this text for months, and the experience as a model in my friend Anaas  fashion show, last Saturday, was the limit for me. This phrase symbolizes the awareness of a reality that has lived with me since I was 20 years old. The battle I’ve been fighting with myself.
I always felt like a ugly bug, someone who lived in a world apart, because of the children that made fun of me at school because I was disabled  (that is to say different from them) or because my Soul did not fit the norm (it was too sensible). And, whether I like it or not, this interaction affected the image I had of myself. When I lost weight suddenly, and at the age of 20, I was diagnosed with anorexia and did not see any reason for it. I did not worship any kind of magazine model. My heroes were Almeida Garrett, Gandhi and the timeless artists of Art History classes. I had not stopped eating, or so I thought. I did not even know that I weighed 64 kilos, or what it meant, until the day the jeans I had just putt on fell to the ground.  None of this was conscious or intentional, and therefore even more difficult to understand. By now I had lost all my muscle mass, had severe depression and anxiety attacks. After a battalion of doctors, supplements, antidepressants and watchmen, I regained a healthy weight and my sanity, or so I thought. And I got a habit: every time I eat, I think if I’m eating enough and if it’s a balanced diet.
And it all worked out very well, until 2 years ago I had to start doing new treatment that makes me gain weight and I reduced muscle activity because of partial epilepsy, which had not yet been diagnosed, and then 20 kilos rushed to me and the true labor started: to reconcile myself with this new body image. And it was here that I discovered that what was wrong has  never had anything to do with my body, because no matter how thin I was I did not think I was beautiful. My shoulders were always wide, my face too square, my body too odd. And it was also here that I discovered that the toned arms and body I had, after all, were what many  woman wanted, and I took a softer view on my own beauty. The eyes, the lips, the Soul. I think we are too harsh, too demanding on ourselves because we have concepts of unreal beauty based on other concepts that our own mind has created, wich may well not even exist. And has I arrived to this conclusion, I realized that I had spent so much time preaching “we are just a shell for the Soul “and” Beauty comes from the inside “that I forgot to do the most important thing – Love myself. And you can say whatever who want to try and help me,  but  is me who has to do the work and “fix” me, it’s each of us. Because if we do not love ourselves, seriously, raw and simple, without slogans, without phrases or accessories , Life does not advance. And I’m not an example to anyone, I’m just doing it for myself, blindly, without a map, I’m just learning to do it every day, one day at a time. The road is long. The Destination seems impossible. I know there are many women and men with anorexia, bulimia or pure low self esteem out there who will read this and think, “words are easy.” I also have no magic recipes, but I believe that each one of us has the ability to hear our own heart and recognize our own Beauty. Sometimes we just forget to listen to our heart. We just have to look inside, look deep, and we’re going to find ourselves, our Beauty. And that will change our view of us. That will change our Life. Do not give up.

PT

“Eu sei que sou bonita, mas não me sinto bonita.”

Esta frase deve fazer círculos no pensamento de muitas mulheres do mundo. E não digo isto para que tenham pena de mim ou para que me façam elogios. Percebi que nada disso funciona. A questão vem de dentro. Estou para escrever este texto há meses, e a experiência como modelo no desfile da minha amiga Anaas, no último sábado, foi a gota de água.Esta frase simboliza a tomada de consciência de uma realidade que vive comigo desde os meus 20 anos, uma batalha que tenho vindo a travar comigo própria.
Sempre me senti um bichinho, alguém que vivia num mundo à parte, fosse porque os meninos gozavam comigo na escola por ser deficiente ( leia-se diferente deles) ou porque a minha Alma não se enquadrava na norma ( era sensível demais). E, queira ou não queira, esta interação afetou a imagem que eu tinha de mim própria. Quando emagreci repentinamente e, aos 20 anos, me foi diagnosticada uma anorexia eu não via razões para tal. Eu não venerava nenhuma especie de modelo de revista. Os meus heróis eram Almeida Garrett, Gandhi e os artistas intemporais das aulas de Historia da Arte. Eu não tinha parado de comer, que percebesse. Eu nem sabia que pesava mais ou menos que 64 kilos, nem o que isso significava, até ao dia em que os jeans caíram depois de apertar o botão. Nada disto foi consciente ou intencional, e por isso ainda mais difícil de perceber. Por esta altura já tinha perdido toda a minha massa muscular, tinha uma depressão grave e crises de ansiedade. Um batalhão de médicos, suplementos, antidepressivos e gente de vigia, depois recuperei um peso saudável e a minha sanidade, ou assim pensava eu. E ganhei um hábito: todas as vezes que como, penso se estou a comer o suficiente e se é uma alimentação equilibrada.
E correu tudo muito bem, até que há 2 anos tive de começar a fazer novo tratamento que me faz engordar e reduzi a atividade muscular por causa da epilepsia parcial, que ainda não tinha sido diagnosticada, e ai 20 kgs correram pra mim e começou o verdadeiro trabalho: conciliar-me com esta nova imagem corporal. E foi aqui que descobri que o que estava errado nunca teve a ver com o corpo, porque tivesse o peso que tivesse eu não me achava bonita. Os meus ombros foram sempre largos, a cara demasiado quadrada, o corpo demasiado esquisito. E também foi aqui que descobri que os braços e corpo tonificados, que eu tinha, afinal eram aquilo que muita mulher deseja e tomei uma perspectiva mais branda sobre a minha própria beleza. Os olhos, os lábios, a Alma. Acho que somos demasiado duros, exigentes conosco próprios porque temos conceitos de beleza irreais baseados em outros conceitos que a nossa própria mente criou, e que podem muito bem nem sequer existir.E ,chegando aqui, percebi que passei tanto tempo a pregar o ” nós somos apenas um invólucro para a Alma” e o ” a Beleza vem do interior” que me esqueci de fazer o mais importante – Amar-me. E posso dizer o que disser, vocês podem dizer o que disserem mas quem tem de fazer esse trabalho sou eu, é cada um de Nós. Porque se não nos Amarmos, a sério, crus e simples, sem slogans, sem frases feitas ou acessórios, a Vida não avança. E eu não sou exemplo pra ninguém, estou só a fazê-lo por mim, às cegas, sem mapa, estou apenas aprender a fazê-lo todos os dias, um dia de cada vez. O caminho é longo. O destino parece impossível. Sei que há muitas mulheres e homens com anorexia, bulimia ou pura baixa autoestima que vão ler isto e pensar:” Falar é fácil”. Eu também não tenho receitas mágicas, mas acredito que cada um de nós tem em si a capacidade de ouvir o próprio coração e reconhecer a própria Beleza. Às vezes só nos esquecemos de ouvir o nosso coração. Só temos de olhar pra dentro, olhar bem e vamos descobrir-nos. E isso sim vai mudar a visão que temos de nós. Isso vai mudar a nossa Vida. Não desistam.

li-e-anaas

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Run

ENG

Because today is the National Day of Cerebral Palsy in Portugal and as a carrier I couldn’t let it go unnoticed.

Life is an adventure. She knew that as soon as she was born, purple and all so small, she ran to the world as soon as she could. She could not wait to find out what was out there. Her mother realized she was different, when she noticed she did not sit like other babies. Life is an adventure and hers was full of magic: Balloons to fill that led world of dreams, while adults looked at her brain.Magic plaster feet, which would fit only the shoes of big boys, to learn how to walk. Nurse fingers to bite, while needles crossed her skin. A full body cast suit, made only for her to draw or let school children draw on it flowers and hearts. Asterix books to pass the time, because she did not know what it was eternity but three months should be alike. Her  mother’s lap to see the sea, because she had missed the rocks, and the water, and the hedgehogs that stung  her every summer. The first steps, for the second time. She did not know that  other children did not learn to walk twice, did not even know that they did not know the same magical world as she. That time she was afraid, and she did not know what fear was. The trip soon after taking of the plaster off had really hurt.She felt she was in a carriage like Cinderella, but the wheels had jumped all the way and every stone they hit caused her unimaginable pain. After she got home, the alley to the annex where she lived was narrow and someone bend her legs. “auuuuuuuccchhhhh” she shouted. She would never would bend her legs again! Those legs, type knife were not hers, they were weak and fluffy and had cuts she did not know . She lied alone in bed admiring them. She would never get out of bed again. The physiotherapist was there every day , because her mother told her she did not want to leave the bed. It wasn’t going to do her any harm, she said, they would only soak up the sun, and little by little she convinced her to leave home. And she sat on street, sad, legs stretched out and boarded up over a stool, like oldwomen, watching the other children run. She dreamed of the street. And dreamed  so much that in a month she started walking again, first communion was that May. And she learned to walk ,perhaps because she did not want to stand out from the olther children by getting into the church in a wheelchair, or simply because she was so stubborn. Like that she took her first step. When she finally released her hands from the bunk and managed to put down her feet, she felt a freedom, a joy she had never felt before. They were hers, they were her feet, and her free and loose arms  and  she would run … would run … would ruuuuuuuuuunnnnnnnnn … And from there on her legs would take her where she wanted, and she was going to take the adventures with her to the world out there . And she learned to climb stairs alone, to go school alone, cooking alone, living in the dorm room alone. Her life would be what she dreamed. It was enough to believe. Because to those who dream everything is possible.

PT

Porque hoje é o Dia Nacional da Paralisia Cerebral e como portadora não podia deixar passar o dia em branco.

A vida é uma aventura. Ela soube isso logo que nasceu, pequenina e roxinha , correu para o mundo assim que pôde. Mal podia esperar para descobrir o que havia lá fora. A mãe percebeu que ela era diferente quando reparou que ela não se sentava como os outros bebés. A vida é uma aventura e a dela estava cheia de magia: Balões que ao encher a levavam para o mundo dos sonhos, enquanto os adultos espreitavam o cérebro dela. Pé de gesso mágicos, aos quais só serviam as sapatilhas dos meninos grandes, para aprender a caminhar. Dedos de enfermeira para morder, enquanto as agulhas lhe atravessavam a pele. Um fato de gesso de corpo inteiro, só pra ela, para desenhar ou deixar os meninos da escola lhe desenharem flores e corações. Livros do Asterix para passar o tempo, porque ela não sabia o que era isso da eternidade mas três meses deviam ser parecidos. O colo da mãe pra ver o mar, porque ela tinha saudades das pedras, e da água, e dos ouriços que a picavam todos os verões. Os primeiros passos, pela segunda vez. Ela não sabia que os outros meninos não aprendiam andar duas vezes, nem sabia que eles não conheciam o mesmo mundo mágico que ela. Dessa vez ela teve medo, e ela nem sabia o que era o medo. A viagem logo depois de tirar o gesso tinha doído muito, sentiu-se numa carruagem, como a da Cinderela, mas as rodas tinham saltado o caminho todo e cada pedra em que acertavam causavam-lhe dores inimagináveis. Depois chegou a casa, a viela até ao anexo onde vivia era estreita e alguém lhe dobrou as pernas. “Aiiiiiii” gritara. Nunca mais ia dobrar as pernas! Aquelas pernas, tipo canivete não eram as dela, eram fracas e felpudas e tinham cortes que ela não lhes conhecia. E ela ficou só na cama admirá-las. Jurando que não saia dali. A fisioterapeuta foi lá todos os dias, porque a mãe lhe disse que ela não queria sair mais da cama. Não lhe ia fazer mal nenhum, só iam apanhar sol, e pouco a pouco lá a convenceu a sair de casa. E ela ficava triste na rua, de pernas esticadas e tapadas por cima dum banco, como as velhas, a ver os outros meninos correr. Ela sonhava com a rua. E tanto sonhou que num mês ela voltou andar, a primeira comunhão era nesse Maio. E ela voltou andar talvez porque não se quisesse destacar dos outros meninos por ter de entrar na igreja de cadeira de rodas, ou simplesmente porque era assim, teimosa. Foi assim que deu o primeiro passo. Quando finalmente largou as mãos do beliche e conseguiu fincar os pés no chão sentiu uma liberdade, uma alegria que nunca tinha tido antes. Eram dela, eram os pés dela, e os braços livres e soltos e ia correr…ia correr…ia correeeeeeerrrrrrrr… E a partir dali as pernas iam levá-la onde ela quisesse, e ela ia levar as aventuras com ela para o mundo lá de fora. E aprendeu a subir escadas sozinha, ir à escola sozinha, cozinhar sozinha, viver na residência da faculdade sozinha. A vida dela ia ser o que ela sonhasse. Bastava acreditar. Porque a quem sonha tudo é possível.